Monteiro Lobato: o pai do faz-de-conta nacional

O autor continua a se fazer ouvir em época de diversão eletrônica. Suas histórias são imperdíveis e o “lobatólogo” Vladimir Sacchetta explica o motivo

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"Monteiro Lobato era do tipo inquieto, alguém que tinha interesse por tudo", diz Vladimir Sacchetta
        Muito antes de se falar em ecologia, Monteiro Lobato chamava a atenção, em meados de 1910, denunciando as queimadas no interior paulista pelas páginas de um jornal. O autor de Reinações de Narizinho queria um Brasil forte, justo - e, ao longo da vida (1882-1948), defendeu a prospecção do petróleo, a implantação de medidas sanitaristas ou a causa que entendia necessária para o progresso do País. Conseguiu irritar governos e interesses estrangeiros, sendo preso mais de uma vez. Um polemista, em síntese.

       Lobato amava o Brasil - e amava demais as crianças. A ponto de ter produzido, com prosa fácil e imaginação ilimitada, dezenas de histórias ambientadas em um universo particular, o Sítio do Picapau Amarelo - é considerado o criador da literatura infanto-juvenil brasileira. "Lobato é o nosso La Fontaine, o pai do faz-de-conta nacional", define Vladimir Sacchetta que escreveu, ao lado de Carmen Lucia de Azevedo e Marcia Camargos, "Monteiro Lobato, Furacão na Botocúndia" - espécie de Bíblia sobre vida e obra do escritor nascido em Taubaté (SP). "Ser ‘lobatólogo’ é uma militância", admite. "E o Brasil tem de se orgulhar de Lobato."

        Vladimir Sacchetta desafia quem consiga encontrar uma criança que não esteja de algum modo familiarizada com a Emília, o Pedrinho, a Narizinho ou outro morador do sítio. "São personagens que já pertencem ao nosso imaginário infantil", diz. Também tem certeza de que o interesse da garotada por essas histórias continua incólume, mesmo em época dominada pela tecnologia. "Pode ocorrer certa dificuldade para entender palavras em desuso, mas até isso é importante porque estimula a consulta ao dicionário", comenta. Só demonstra impaciência, quando lembra que a obra de Lobato correu risco, meses atrás, de ser banida das escolas em razão do tratamento "preconceituoso" à raça negra que aparece em certos trechos. "É uma grande bobagem ler as má-criações que a Emília fazia com a Tia Nastácia, em histórias escritas na década de 30, com os olhos de hoje", alerta. "O educador não deve alterar, mas sim explicar para a criança que fazer isso é inadmissível nos dias atuais." Exatamente o que o Conselho Nacional de Educação recomendou ao encerrar a discussão: o uso do bom senso pelo professor em sala de aula, contextualizando o que há de polêmico na obra de Monteiro Lobato.
         A seguir, os destaques da entrevista de Vladimir Sacchetta.
 
 
Para ler, clique nos itens abaixo:

Por que é importante ler Monteiro Lobato?
Vladimir Sacchetta: Monteiro Lobato tem importância hoje e sempre, ele é o criador da literatura infanto-juvenil brasileira, o pai do faz-de-conta nacional. Até então você tinha traduções malfeitas - e com linguagem indigesta para a meninada - de histórias ambientadas na Europa e que nada tinham a ver com a brasilidade, com o nosso imaginário e folclore. Monteiro Lobato percebeu o problema, quando seus filhos estavam crescendo e não tinham nada para ler... E o que ele faz? Pega as lembranças do menino que cresceu no Vale do Paraíba, lembranças do que ouviu das suas amas de leite - Lobato nasceu em berço esplêndido, seu avô, Visconde de Tremembé, tinha grandes extensões de terra... -, ele pega tudo isso e quase aos 40 anos, em 1920, lança "A Menina do Narizinho Arrebitado", livro que dá partida para a saga do Sítio do Picapau Amarelo e seus personagens.
Mesmo no século 21, as histórias de Lobato continuam imperdíveis?
Vladimir Sacchetta: Claro, até porque alguns dos personagens de Monteiro Lobato fazem parte do imaginário infantil, qualquer criança já ouviu falar da Emília ou viu uma adaptação do Sítio para a TV... São histórias transmitidas do avô para o pai, dele para o filho e assim por diante. E não perdem o interesse para a garotada mesmo apresentando vocabulário pouco utilizado, afinal, até isso é importante, no meu entender, porque estimula a pesquisa no dicionário... Trata-se de uma literatura que, com a mediação do professor ou mesmo dos pais, pode se tornar algo muito rico - fazer uma criança entender, por exemplo, a diferença entre um Saci e uma bruxa do Halloween.
São 31 títulos infanto-juvenis, obra extensa... Por onde você sugere começar?
Vladimir Sacchetta: A reedição da obra completa de Monteiro Lobato, tanto a infantil quanto a adulta (composta de 25 títulos, por sinal), começou em 2007 e se encontra em fase final. Foi um modo de celebrar o 125º aniversário de nascimento do escritor pela Editora Globo - e também explorar esse negócio altamente viável. Se pudesse encaminhar uma sugestão de leitura inicial para as crianças, ela seria "Reinações de Narizinho", meninos incluídos. É o livro mais conhecido, com histórias que podem ser lidas em conjunto ou separado - o que até então, 1931, era inédito na nossa literatura.
Diz-se que Lobato tomava iniciativas ousadas sem pestanejar - lenda ou verdade?
Vladimir Sacchetta: Veja, Monteiro Lobato era do tipo inquieto, alguém que tinha interesse por tudo. Ao longo da vida foi uma espécie de marco zero em várias atividades - como, por exemplo, ter sido o precursor da literatura paradidática, hoje instrumento de educação dos mais utilizados. Lobato inventa esse estilo a partir das reclamações em carta que recebe das crianças - elas escreviam muito para ele que, por sua vez, dava muita atenção à correspondência, estimo que ele respondia de 30 a 40 cartas por dia! As crianças diziam que a gramática era chata, a aritmética, difícil, e então ele resolveu escrever vários livros ("Emilía no País da Gramática" e "A Aritmética da Emília", por exemplo) de forma a resolver essa "chatice escolar". A criançada também dava palpite nas histórias e ele estava aberto a todas as sugestões.
Monteiro Lobato escrevia rápido?
Vladimir Sacchetta: Sim, era um escrevinhador compulsivo - e também um leitor voraz. Conhecia todos os escritores importantes da literatura infanto-juvenil mundial, de Esopo e La Fontaine aos irmãos Grimm, Hans Christian Andersen e Lewis Carroll (aliás, Monteiro Lobato pertence a esse panteão de fabulistas, ele é o nosso La Fontaine!) Inglês, ele nunca falou direito, sempre manteve o sotaque caipira, mas foi tradutor da obra do americano Mark Twain; na verdade, ele dizia que não traduzia, mas sim fazia uma "ordenação literária" - o que fazia era mesmo copy desk no texto fosse de quem fosse (e era muito criticado por isso!), conseguindo transformar as personagens mais próximas de um Pedrinho dos trópicos do que dos meninos do Mississipi (caso da obra de Mark Twain). Fez isso até com Hemingway - era mesmo muito atrevido!
Que formação Monteiro Lobato teve?
Vladimir Sacchetta: Ele se formou em Direito por imposição do avô, freqüentando a escola do Largo do S. Francisco, na capital paulista. Depois, com a morte desse avô, herdou as terras dele, virou fazendeiro e quase morreu de tédio como promotor público em Areias, ao pé da Serra da Bocaina (SP). Mais tarde, se desfez das propriedades e, com o dinheiro da venda, comprou a Revista do Brasil - é quando nasce o Lobato editor. E, de novo, se mostra pioneiro da indústria editorial moderna ao criar um sistema de distribuição e venda, a mala direta e a consignação. Como o número de livrarias era mínimo naqueles anos 20, ele queria contar com mais pontos de venda por todo o País, afinal, para Lobato, livros poderiam ser vendidos no armarinho, na farmácia etc. Era capaz de pensar a literatura como um negócio, não era só fantasia, não.
E quando os livros de Lobato começam a ter grandes tiragens no Brasil da época?
Vladimir Sacchetta: Nos anos 40, os livros de Monteiro Lobato já acumulavam vendas de 1 milhão de exemplares sobretudo no Brasil - sim, porque ele também fez sucesso na Argentina, chegou a viver dois anos em Buenos Aires e era muito festejado pelas crianças de lá... Ele formou leitores desde 1920, claro, crianças que não tinham os brinquedos eletrônicos de hoje, nem TV, só rádio... Lobato entrou na minha vida quando criança, eu li todos os livros dele, meu pai sempre me estimulou muito a ler desde cedo - havia muito livro em casa. E hoje tem criança que vive em casa sem livro, o que é arrepiante! Acredito que o livro tem de viver harmoniosamente com todos esses botões, aparelhos e traquitanas eletrônicas. E aí entra o papel do educador para incentivar a garotada nesse sentido, aproximá-la dos livros.
Quais são as personagens principais do universo criado por Monteiro Lobato?
Vladimir Sacchetta: A Emilia, boneca costurada pela Tia Nastácia (a mãe dela, portanto) é o alter ego de Monteiro Lobato - e esteve presente em todos os momentos do escritor. Irreverente, faz o que lhe dá na veneta e é impossível não se apaixonar por ela. Já o Saci é personagem que Lobato conhecia desde o tempo que ouvia as negras da fazenda contando histórias... Um mito que nasce índio, depois é incorporado pelos negros africanos e que ainda vai sofrer influências dos imigrantes do século 19, quando põe na cabeça o barrete frígio. O Saci incorpora a identidade nacional, é muito bonito. Aliás, Lobato começou a se interessar em fazer do Saci personagem de livro depois de um passeio pelo Jardim da Luz, no centro de São Paulo. Era um dia de calor e ele reparou, no parque, nas esculturas de duendes - que país tropical era esse, ele se perguntava, capaz de usar aquele imagem tendo uma mitologia tão rica!
Há em tudo o que ele escreve e faz o amor pelo Brasil?
Vladimir Sacchetta: Ele tem um projeto nacionalista, do qual o Saci faz parte, que vai carregar por toda a vida. No Estado de S. Paulo, onde foi jornalista na década de 10, escreveu artigos propondo que os mitos brasileiros deveriam fazer parte do currículo escolar, veja só a grandeza do pensamento dele! Também defendeu o meio ambiente de modo inédito, ele dizia que o homem era o único ser capaz de destruir o ambiente onde vive... O primeiro artigo que o projeta na grande imprensa se chama "Uma Velha Praga" e fala sobre as queimadas no vale do Paraíba, tempo da fazenda que ele tinha por lá. Lobato enviou uma carta, indignado, ao Estadão - e ela foi publicada não na seção de Cartas, mas sim no corpo do jornal, isso, em 1914. Era o início de sua vida de jornalista.
Na biografia de Lobato, chama a atenção o fato de ter trabalhado em Nova York...
Vladimir Sacchetta: Lobato vai para os Estados Unidos em 1927, como adido comercial a serviço do consulado brasileiro em Nova York. Lá ele fica até o início de 1931 (com a Revolução de 30, é exonerado do cargo). É outro momento importante da vida dele, quando conhece o metrô, o cinema falado, o jazz, a indústria automobilística etc., acontece um nó na cabeça dele - e que só estimula as ideias que já tinha na cabeça, como a de que as bibliotecas deveriam ser interligadas por infovias, ou seja, o embrião da internet. No caso do porviroscópio, era uma máquina de prever o futuro, espécie de bola de cristal lobatiana que apareceu em "O Presidente Negro", livro para adultos que ele escreveu em duas semanas entre 1925 e 1926, no Rio. Lobato ainda não tinha ido aos EUA, mas anteviu a eleição disputada por um candidato negro e por uma mulher branca... Fantástico, não é?
Você tem orgulho de Monteiro Lobato, não é?
Vladimir Sacchetta: Eu adoro Monteiro Lobato, eu o chamo de ‘cidadão escritor’ - o país tem de se orgulhar de Lobato, com todas as contradições e os momentos infelizes de que são feitos os grandes homens... Acho uma grande bobagem ler as má-criações que a Emília fazia com a Tia Nastácia em livros escritos na década de 30 com os olhos de hoje. Não temos de alterar as expressões "racistas" da personagem, mas sim explicá-las para a criança, mostrar que hoje falar desse jeito é inadmissível, esse é o papel do educador. Caçar onça, por exemplo, é crime inafiançável - só que, em 1933, a situação era outra, por isso, as personagens do livro "Caçadas de Pedrinho" caçavam e matavam onça, claro. Aliás, como é que um escritor pode ser chamado de racista, se foi capaz de criar a Tia Nastácia, negra que carrega dentro de si toda a riqueza da nossa cultura popular? Ela é uma síntese de todas as negras que Lobato conheceu na infância, figura importantíssima do Sítio do Picapau Amarelo, espaço multicultural, onde todos convivem, independentemente das qualidades e dos defeitos de cada um.
Fonte: http://educarparacrescer.abril.com.br/leitura/monteiro-lobato-pai-faz-de-conta-nacional-637335.shtml

Todos somos educadores


Num sentido amplo, todos somos educadores.

Somos "educadores",
porque ensinamos
- consciente ou inconscientemente -
formas mais ou menos interessantes de viver,
que podem servir de estímulo para evoluir
ou de pretexto para manter-se na mediocridade.

Somos educadores,
quando vamos nos construindo
como pessoas melhores, mais equilibradas,
mais competentes
profissionalmente,
emocionalmente,
socialmente.

Somos educadores de nós mesmos,
se vivemos cada etapa da vida com coerência,
aprendendo a lidar com nossas dificuldades,
contradições, defeitos,
e avançamos, no ritmo possível,
tornando-nos pessoas mais afetivas, engajadas, realizadas.

Somos educadores,
quando contribuímos para motivar as pessoas
que estão perto de nós,
quando transmitimos esperança,
quando ensinamos valores humanizadores,
principalmente pelas nossas ações.

Somos educadores,
quando construímos uma trajetória pessoal,
familiar, profissional e social digna,
crescente e rica em todas as dimensões.

Muitos não acreditam no seu potencial de crescimento
e, infelizmente, se perdem ou se contentam
com uma vida superficial,
consumista, autocentrada e insignificante.

Vale a pena - ao olhar para nossa vida, tão rápida e insegura –
constatar que está valendo a pena,
que nosso saldo é positivo,
que não nos contentamos simplesmente em sobreviver,
que nos realizamos cada vez mais
- com problemas e contradições -
como pessoas mais abertas, humanas e atuantes socialmente.

Valorização, o tema do momento

Decisões da Conferência Nacional de Educação recomendam formação em universidades públicas e facilidades para a formação contínua; gestores de redes veem dificuldades para implantar propostas
 
Amanda Cieglinski


Em ano de eleição, a educação ganha espaço no debate político e aparece no discurso de quase todos os candidatos. Muitos deles colocam a valorização do professor como estratégia para melhorar a escola pública no país. O tema também foi um dos destaques da Conferência Nacional de Educação (Conae), realizada em Brasília no primeiro semestre de 2010. O documento final do encontro traz uma série de orientações para garantir a chamada "valorização dos profissionais da educação". As decisões da Conae não têm força de lei, mas devem orientar a construção do novo Plano Nacional de Educação (PNE), que será encaminhado ao Congresso após as eleições.

Não é de hoje que a profissão está em crise. Baixos salários, formação inadequada e condições precárias de trabalho afastam os jovens do magistério e comprometem a qualidade do ensino. Para reverter essa situação, os participantes da conferência indicaram uma série de medidas que precisam ser adotadas pelos governos nas três esferas - todas relacionadas à formação e à valorização profissional. 

"Discutir a formação sem atrelá-la às condições de trabalho é um equívoco. Sempre que segmentamos essas duas facetas, temos problemas", aponta Márcia Ângela Aguiar, da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação (Anped), uma das coordenadoras do eixo quatro da Conae, voltado à discussão sobre a situação dos profissionais da educação.

O texto do documento final da Conae traz orientações claras sobre como deve ser a formação inicial de professores da Educação Básica, classificada como "insatisfatória". Os docentes devem ser formados prioritariamente por instituições públicas em cursos com currículos que aliem a teoria à realidade das escolas públicas.  "Houve uma expansão muito grande do setor privado, sem qualidade. Esse é um dos indicadores que prejudicam a formação como um todo. O setor privado tomou conta da maioria das matrículas e não está formando um profissional preparado para atuar na escola", critica Heleno Araújo, secretário de assuntos educacionais da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE). Com Márcia, ele foi responsável pelos trabalhos do eixo quatro.

De acordo com o documento, a formação deve ser "baseada na dialética entre teoria e prática, valorizando a prática profissional como momento de construção e ampliação do conhecimento". Márcia Ângela rebate a crítica frequente de que as universidades hoje estão distantes da Educação Básica e não preparam o professor para encarar a realidade da escola pública brasileira.

"A coisa mais fácil é acusar o professor ou a universidade. Se verificarmos, são grandes a contribuição e a produção científica das universidades para os professores", defende. Na avaliação da pesquisadora, é preciso reforçar o vínculo das instituições de ensino superior com as secretarias de educação. "Muitas universidades já têm convênios com os sistemas [municipais e estaduais] de ensino. É preciso intensificar isso, firmar acordos que garantam maior aproximação institucional para que as escolas sejam campo de estágio para os estudantes. Mas é uma via de mão dupla", pondera.

EAD versus presencial
Outra definição da Conae sobre a formação inicial docente é que ela deve ser presencial. O tema foi motivo de discussões acaloradas durante o encontro. Segundo o documento final, a formação a distância só deve ser admitida em casos excepcionais, quando não houver cursos presenciais na região. Alunos, professores e outros representantes do setor de educação a distância presentes na conferência se sentiram prejudicados por essa decisão, vista como "preconceituosa" por quem defende a modalidade. 

"Estamos vivendo um momento em que as relações humanas estão fragilizadas. Em processos de formação a distância, por meio de uma máquina, você poderá formar profissionais distantes desse olho no olho, da relação entre pessoas. O Estado brasileiro, mesmo sendo de proporção continental, tem de se preparar para atender à demanda por formação inicial de ponta a ponta", teoriza Heleno.

No caso da formação continuada dos professores que já atuam na área, o documento da Conae admite a possibilidade de cursos não presenciais. "Os recursos tecnológicos têm de estar à disposição de todos, na mão dos professores, para que possam utilizá-los de forma adequada. No caso da formação continuada, a educação a distância é uma forma para atingir mais pessoas. Mas as exigências de qualidade devem ser as mesmas", defende Márcia.

Ano sabático e redução da jornada
Os participantes da Conae indicaram que a atualização dos docentes em cursos de especialização, mestrado ou doutorado deve ser um pré-requisito para a valorização salarial. Para tanto, as secretarias de ensino devem incluir a formação continuada em seus planos de carreira e os professores que buscarem esse aperfeiçoamento terão redução da carga horária ou mesmo dispensa remunerada da função para se dedicar aos estudos.

No caso da pós-graduação lato sensu, a redução da jornada seria de 50%. Para os docentes que ingressarem em cursos de mestrado ou doutorado, os participantes da Conae querem liberação integral, com remuneração garantida. Outra proposta é que a cada sete anos de trabalho o professor possa tirar um período sabático de 12 meses para estudar.

O texto final apresenta todas as justificativas sobre a importância de garantir ao professor a oportunidade de conciliar a formação continuada com a carreira. Mas será uma difícil tarefa convencer as redes de ensino a liberar seus profissionais. A lei do piso nacional do magistério, de 2008, já traz um dispositivo que aumenta de 20% para 30% o percentual de horas que o professor deve ter para se dedicar ao planejamento e à atualização. Esse dispositivo levou governadores a questionar a constitucionalidade da lei no Supremo Tribunal Federal (STF), alegando que fere a autonomia de estados e municípios em relação à jornada e ao plano de carreira.

"Um país que quer levar a sério a política educacional, como estão colocando os candidatos nessa eleição, tem de ter a responsabilidade de garantir a atualização desse profissional que já atua na escola. Ele precisa acompanhar as mudanças que o mundo e o país enfrentam, a questão da mudança climática, por exemplo", afirma Heleno.
Para a presidente do Conselho Nacional dos Secretários de Educação (Consed), Yvelise Arco-Verde, as demandas são legítimas mas não são fáceis de ser colocadas em prática. Ela ressalta que a implementação do ano sabático ou da licença para estudo exigiria, por exemplo, a contratação de mais professores para substituir os ausentes.
"Há uma questão de fundo complicada, que é a Lei de Responsabilidade Fiscal. Ela acaba impedindo o gestor de propor ações que permitam ampliar o quadro de pessoal ou a folha de pagamentos", afirma.

Para o presidente da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime), Carlos Eduardo Sanches, a licença remunerada para cursos de formação é a questão mais preocupante, pois é financeiramente inviável para os municípios. "Claro que somos favoráveis ao professor ter um tempo maior para o planejamento e estudo, isso teria um resultado na qualidade do ensino. Mas com o montante de recursos que temos hoje não podemos atender essa demanda", explica.

Um estudo da Undime aponta que seria preciso ampliar em 20% o efetivo de professores para garantir que cada docente tenha um terço da sua jornada de trabalho livre para planejamento e atualização. Esse dispositivo está incluído na lei do piso, aprovada em 2008. 

Piso dobrado
Além da melhoria das condições da carreira e da formação, a conferência não deixou de lado o debate salarial. Hoje a lei do piso nacional do magistério - ainda descumprida em boa parte do país - estabelece uma remuneração mínima de R$ 950 para uma jornada de 40 horas semanais.  O documento final reconhece a legislação como um avanço, mas sugere o aumento do piso para R$ 1,8 mil com redução da carga horária semanal para 30 horas. No caso de professores com dedicação exclusiva, esse valor deveria ser dobrado. Se os municípios e estados não tiverem verba disponível para pagar os valores atuais, a CNTE defende que haja complementação da União.

Para o representante do órgão, a materialização dessa e das outras propostas da Conae dependerá de pressão da sociedade. "Hoje já existe uma demanda e uma consciência da população de que a educação precisa ser uma prioridade. O importante é manter essa mobilização", acredita. Resta, como diria Mané Garrincha, "combinar com os russos". No caso, os russos são os ministros da área econômica e os representantes de outras áreas sociais que também reivindicam mais recursos.

Valorização do professor
Conheça as principais propostas da Conae
  • A formação inicial deve ser presencial e feita em instituições públicas. A formação em cursos a distância deve ficar reservada a casos excepcionais
  • A via de ingresso dos professores às redes de ensino deve o concurso público
  • Professores em atuação que desejem participar de cursos de especialização devem ter a jornada de trabalho reduzida em 50%. Se a formação continuada for em cursos de mestrado ou doutorado, deve ser concedida licença remunerada
  • A cada sete anos de trabalho, o professor terá direito a tirar um ano sabático para se dedicar aos estudos
  • Garantir os estágios nos cursos de licenciatura, articulando o trabalho entre as escolas públicas e as instituições formadoras
  • O piso nacional dos professores, a ser pago por todas as redes de ensino, deve ser de R$ 1,8 mil para uma jornada semanal de 30 horas
  • Estabelecer um número máximo de alunos por turma para cada etapa da educação. De 4 a 5 anos, até 15 crianças por professor; nos anos iniciais do ensino fundamental, até 20 estudantes; nos finais, 25 alunos; no ensino médio, até 30
Fonte: http://revistaeducacao.uol.com.br/textos.asp?codigo=13001

Ser professor é saber ensinar?

Por: Helio Valerio da Silva


A cada dia há uma nova aprendizagem em nossa vida.  o ensinar a gente aprende e, com essa aprendizagem, a gente ensina melhor. Isso sempre se transforma num círculo contínuo e, o melhor, produtivo.

Nas diversas faculdades da vida aprende-se que o aluno vem até o professor no intuito de aprender e que o professor deve estar preparado para ensinar. Lá nos ensinam a seguir teorias das mais diversas, testadas ou não, aprovadas ou não, quem sabe? Mas todas elas trazidas de lugares dos mais diversos, de realidades diferente da nossa, onde os valores sócio-culturais, políticos, religiosos e os costumes não têm nada a ver com o nosso dia-a-dia. Sem perceber, muitas vezes utilizamos essa prática nefasta que anula ou, ao menos, confunde o conhecimento prévio do aluno. Ensinamos ao nosso aluno faminto a escrever “lasanha” e o pobre nem enche a boca de água, porque muitas vezes nem sabe o que é. Ensinamos, no bê-á-bá, o "a" de ameixa, o "b" de bola, "c" de caqui, "d" de... Danou-se! E o "f" de fada? Será que o professor acredita em contos de fada? Quando e onde esses pobres alunos viram uma ameixa, um caqui... Tem professor que ousa ensinar o "c" de caviá sem nem ele saber sequer de onde vem e muito menos o que é. Não seria mais fácil ensinar o "a" de abóbora, (o b de bola ainda vá lá), o "c" de caju, o "d" de dedo, o "e" de escola, "f" de família (está mais presente na vida deles do que o feijão e a fada, ainda que desestruturada). Não seria mais interessante um ensino regionalizado onde se valoriza o que o aluno conhece e está presente no seu cotidiano?

E se a aprendizagem deve acontecer naturalmente, sem imposições nem ritmo pré-estabelecido, por que não valorizar o conhecimento prévio desse aluno?

Não seria mais simples para o professor ensinar que lápis se escreve com l do que “o l de lasanha?” A não ser que eles (professor e alunos) levem os ingredientes e a receita e, juntos, com objetivos claros, bem definidos, botem, literalmente, a mão na massa e preparem uma. Isso daria uma aula e tanto. Usaria a matemática até na hora da degustação (seria necessário o milagre da multiplicação da lasanha, da adição ou subtração de algum ingrediente ou da divisão em partes iguais?). São nesses momentos que a interação professor-aluno deve tomar proporções gigantescas, uma vez que, assim, o professor pode demonstrar afetividade e respeito, mostrando ao aluno que, apesar de ser o professor, existe entre eles algo que os torna iguais: a condição humana de inacabados e em constante transformação.

Reconhecer esse fator é importante. Não dá para planejar uma aula sem se por nos dois lugares: o do professor e o do aluno. No mínimo se faz necessário que o professor se preocupe com o ponto de vista do aluno, com o seu conhecimento prévio e reconheça as suas limitações. Não se pode planejar uma aula de uma hora sem que se deixe espaço para as interações, para a exposição dos pontos de vista dos alunos, ainda que para muitos o exposto não faça sentido, deve-se ouvir e compreender que, se para o professor não faz sentido, talvez para esse aluno falte apenas um detalhe: a correção ou orientação do professor. Além disso, professor tem que ser psicoterapeuta. Deve saber cuidar do lado emocional do aluno, com sensibilidade, carinho e paciência. Faz-se necessário que ele tenha o mínimo de conhecimento psicológico para enfrentar seu ofício em sala de aula. Um dia um aluno lhe vem com um problema pessoal, outro com um problema de saúde, de relacionamento, financeiro (...) e o professor precisa estar preparado para enfrentar esses problemas. Ele é, muitas das vezes, a única pessoa que o aluno tem para se abrir, com quem imagina contar e esse professor não pode decepcioná-lo. Aconselhável é, nesses momentos, o uso da PEDAGOGIA DO AMOR, pois só a demonstração de afeto, carinho e respeito do professor, pode fazer o aluno sentir-se importante e capaz de transpor essas barreiras.

O verdadeiro professor é aquele que ajuda ao aluno a encontrar as respostas sem em nenhum momento mostrar onde essa resposta está. Deve ser criativo e capaz de ver no limão azedo a possibilidade de fazer uma limonada.

É importante saber que, dentro de sala e fora dela, o professor é alguém em quem o aluno se espelha, uma vez que este é (ou deveria ser) o seu mais concreto exemplo de sabedoria, de caráter e, por que não, de heroísmo. Exemplo disso é que toda criança um dia brinca de escolinha e todos eles sempre querem ser o professor. Quando a disputa acontece, sempre acaba nessa posição o mais velho, o maior da turma, alguém de destaque e desenvoltura. Isso não é uma forma de respeito? Por que será que eles nunca deixam esse posto para o mais bobo? Isso provoca uma série de indagações. 

Fonte: http://www.meuartigo.brasilescola.com/pedagogia/ser-professor-saber-ensinar.htm